Thais
esperava uma oportunidade dessas há um tempo. Já tinha desistido de ir sozinha
ou perto de sua casa, mas resolveu que iria aproveitar a estadia na casa da
amiga Fabiana para irem juntas colocarem um piercing.
Já haviam
rodado a cidade inteira atrás de um lugar aberto em plena tarde de domingo.
Afinal, era fim de ano, quem não iria trabalhar em sua loja de Tatoo´s nesse
dia? Fabiana queria desistir, poderiam fazer isso outro dia, mas Thais, que não
queria deixar a oportunidade passar de jeito nenhum, insistiu:
- Vamos
continuar procurando! Não volto pra BH sem esse maldito piercing.
Depois de
muito procurarem, resolveram que iriam à farmácia da cidade - Fabiana morava
numa pequena cidade do interior de Minas Gerais: Nova Lima. Assim que entraram
na loja, Thais parou:
-Pensando
bem a gente pode deixar para outro dia...
- Não mesmo,
protestou Fabiana. Agora vamos furar a orelha!
- Mas,
mas...
- Mas, mas o
caramba! Vamos logo! E puxou Thais, que estampava o terror no rosto, pra dentro
da farmácia.
Chegaram ao balcão e chamaram à farmacêutica.
Fabiana seria a primeira a furar a orelha. Enquanto isso, Thais pensou em sair
de fininho, mas foi só pensar nisso que sentiu a mão de Fabiana em seu braço.
Ela gritava e gemia, e rangendo os dentes disse:
-Socorro,
Thais! Dói demais!
Sem saber o
que fazer Thais gritava junto com ela. Quando Fabi terminou, estava rindo
bastante. A vitima da brincadeira apenas xingou um “idiota” e se preparou, como
pode para o grande furo. Inclinou a cabeça. A farmacêutica já estava prestes a
furar quando Thais interrompeu:
-Moça, fura
aqui, viu? Aqui ó? Presta atenção, ok?
Preparou-se
novamente. Sentia o medo e a emoção do momento. Interrompeu de novo. Fabiana
questionou:
-Mas o que
foi dessa vez?
- Eu to com
medo...
- Ahhhh!
- Moça, de
novo... Aqui ó, disse Thais apontando o local da furada.
- Tá bom, tá
bom! Se comportar eu te dou um pirulito! Exclamou a farmacêutica.
Então veio a
preparação. Fabiana olhava com um sorriso sádico. Thais fechou os olhos e
rangeu os dentes. A farmacêutica ergueu os braços, agulha em punho.
Thais então,
num golpe como nunca antes se vira, girou e desviou-se da agulha. A
farmacêutica espetou o próprio e, enquanto se contorcia de dor, a menina ria de
nervosismo.
-Não, você
não vai fazer isso comigo!
-É o que
veremos... Disse a farmacêutica com ódio vibrando nos olhos.
Iniciou-se
uma batalha violenta na pequena farmácia. Thais, sem arma naquele momento,
empunhou um pacote de aspirinas que estavam próximos, enquanto a moça da
farmácia pegava outra agulha e descartava a usada em si mesma, afinal, não
seria higiênico usar a mesma agulha. O embate começou. Enquanto uma defendia
com aspirinas, a outra atacava com agulhas. Depois de algumas provocações e
duelos, Fabiana, que até então não acreditava no que via, interviu e segurou a
amiga.
- Chega!
Agora você faz o maldito furo!
A
farmacêutica se apressou e num golpe único e singular deu a espetada na garota.
Thais começou a gemer e rolar no chão. Depois dessa derrota ímpar, ela se
ergueu e agradeceu a moça:
-Obrigada! E
agora me dê meu pirulito!
A moça não
acreditou. Quase correu pra pegar outra agulha e pra espetar a vida da garota.
Mas para terminar o combate, entregou um pirulito pra menina
- Obrigada e
volte sempre. Disse contrariada, seguindo as ordens de boa educação que o chefe
lhe dera.
Fabiana e
Thais saíram enfim da farmácia. A primeira, escondendo a cara de vergonha. A
outra estava sorridente. Tinha conseguido o que queria e ainda ganhara um
pirulito. Era muita para um só dia.
